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O volume de chuvas observado no início do período úmido está permitindo reduções significativas nos preços da energia, tanto no mercado de curto prazo, como já vem sendo observado e registrado semanalmente, como nos contratos de venda para 2019. O preço spot, tecnicamente conhecido como Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), já caiu 15,75% desde o início de novembro, para R$ 119,21 por megawatt-hora (MWh), enquanto o preço da energia para entrega no primeiro trimestre de 2019 baixou 32,9% no mesmo período, alcançando R$ 113,03/MWh na negociações na plataforma BBCE.

“Os valores praticados atualmente são menores que os preços mínimos cobrados no ano passado. Aliás, atualmente os valores são os menores já praticados para 2019. E no curto prazo, entende-se que essa tendência de mercado deve continuar”, diz o gerente de Risco de Mercado de Energia da Electra Energy, Sandro Antonio Saggiorato. A comercializadora tem observado em suas negociações evolução semelhante nos valores acertados nos contratos de energia de seus clientes.

A consultoria Dcide também apontou queda no preço da energia em contratos trimestrais, em seu levantamento semanal divulgado ontem (21). O índice trimestral, neste caso para o período entre dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, alcançou R$ 96,91/MWh, baixa de 38,30% em um mês e de 4,35% em uma semana. Em um ano, a queda acumulada é de 54,49%. A energia incentivada (proveniente de fontes renováveis como eólica, solar, térmicas a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas – PCHs) já é negociada em R$ 137,74/MWh para o mesmo tipo de contrato trimestral, queda de 27,53% em um mês.

Especialistas apontam que a queda observada nos preços da energia está relacionada ao início do período úmido, que surpreendeu o mercado. A analista de mercado da Safira Energia Gabriella Salles comenta que, após meses de previsões frustradas de precipitações, o volume de chuvas foi melhor que o esperado em outubro, quando ficou em linha com a média histórica, algo que não era observado ao longo dos últimos anos. “Saímos de cenário de previsões frustradas e vimos uma entrada de período úmido diferente do que vinha acontecendo nos últimos cinco anos, o que fez o preço cair, gerando uma movimentação no mercado, com aumento da demandas de compra de energia”, diz.

A gerente de gestão de clientes da Delta Energia, Débora Mota, também destaca o registro de um outubro “molhado”, tendência que se manteve em novembro, o que trouxe uma expectativa para o mercado de comercialização de energia de um período úmido mais favorável em termos de afluência do que nos últimos anos, refletindo-se em preços de energia ao longo de 2019 mais baixos do que os verificados em 2018. Ela salienta, no entanto, que a chuva observada até agora, embora positiva, ainda estaria relativamente concentrada em algumas áreas de influência de hidrelétricas a fio d’água e que seria importante observar maior afluência em bacias hidrográficas onde estão usinas com maior capacidade de reservatório. “Ainda temos de acompanhar. Outubro foi favorável e começamos a ver melhora. Vamos ter de acompanhar a recuperação de reservatório, o que ainda é uma incógnita”, afirma.

De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o nível de armazenamento do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que caiu a mínima de 17,61% no ano passado, recuou até 20,28%, anotados em outubro, e já iniciou uma recuperação, ainda que tímida, até 20,74%. No Sul, a recuperação é mais expressiva, e a Energia Armazenada já alcançou 77,32%, após ter alcançado a mínima de 40,64%, em agosto – em 2018 a mínima foi de 36,16%, em setembro.

Mota lembra que há possibilidade de instalação do fenômeno El Niño, o que influenciaria o regime de chuvas, consequentemente, nas perspectivas de recuperação dos reservatórios das hidrelétricas.

A meteorologista da Somar Meteorologia Maria Clara Sassaki explicou que já tem se observado o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, mas o efetivo estabelecimento do El Niño, que seria de fraca intensidade, tende a ser confirmado apenas na virada de 2018 para 2019. Caso se confirme, o fenômeno deve trazer chuvas irregulares na região central do País. “Quando a chuva é dessa forma, o armazenamento pode ficar prejudicado”, explica, lembrando que as precipitações no Sudeste e Centro-Oeste podem se dar na forma de temporais e ocorrer de maneira esparsa na região. “Pode chover muito em uma área e pouco em outra logo ao lado, e a depender da localização, pode não beneficiar os reservatórios”, acrescenta. Ela lembra que o El Niño também reflete em grande volume de chuva no Sul e clima mais seco no Nordeste.

Saggiorato, da Electra, sugere que se a chuva continuar ocorrendo nos níveis observados em outubro e novembro, haverá uma recuperação dos reservatórios melhor que a observada os últimos anos. “Se chegar entre 50% e 55% (ante os 47% de 2018), o bloco de térmicas mais caro (movidas à óleo combustível) provavelmente não será utilizado”, estimou, sugerindo que seriam despachadas apenas as térmicas a gás natural e carvão, que possuem menor custo, o que se refletiria em um preço spot de energia mais baixo.

Para ele, com o nível de armazenamento acima de 50% no final do atual período úmido, em abril de 2018, o preço da energia chegaria ao ápice de R$ 200 a R$ 250 por MWh no período seco (entre maio e setembro) de 2019, acima do valor na casa dos R$ 100/MWh observado atualmente para os contratos de janeiro a março de 2019, mas abaixo dos R$ 434/MWh anotados pela Dcide para o contrato trimestral para o período entre agosto e outubro de 2018.

Gabriela Salles, da Safira, comenta que o mercado está apostando em preço médio de energia até R$ 200/MWh, mas considera que qualquer estimativa neste momento é prematura. “Há uma diferença grande de cenário”, avalia, referindo-se ao El Niño e as diferentes configurações do fenômeno, de acordo com sua intensidade, que contribuem ou não para a recuperação dos reservatórios.

Sassaki comentou que a chuva que tem sido observada no Sudeste e Centro-Oeste desde outubro tende a se manter nos níveis atuais até o início de dezembro, mas depois deve reduzir o ritmo.

Fonte: Luciana Collet – Agência Estado

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